Geração 00 e a fotografia irreal

Foto da série Desejo Eremita, de Rodrigo Braga

Sábado fui na exposição Geração 00, no Sesc Belenzinho. A proposta da mostra, curada por Eder Chiodetto, era reunir os fotógrafos que mais se destacaram, do ano 2000 até 2010. A tarefa, imagino, não deve ter sido fácil, uma vez que a imagem passou por diversas mudanças nesses últimos dez anos e os fotógrafos precisaram se adaptar a cada mudança tecnológica imposta pelo período, dessa forma, a expressão artística foi muito ampla e diversificada.

A meu ver, a exposição busca desmistificar, de uma vez por todas, o caráter de “realidade” que a fotografia ainda goza. Nesses últimos dez anos, com o amplo uso de softwares de manipulação de imagens e a forte tendência na fotografia contemporânea em encenar situações para a objetiva, a fotografia perdeu muito de sua credibilidade de “isto foi”.

A “nova” fotografia, a que não busca mais copiar a vida, mas sim interpretá-la, causa ainda mais fascínio, isso ocorre porque a imagem fotográfica brinca com a nossa mente, ao vê-la somos condicionados a tratá-la, primeiramente, como verdadeira, só em um segundo momento que conseguimos dissociá-la do real. O primeiro pensamento é sempre “uau”, para o segundo ser, “ah, mas isso deve ter sido feito no photoshop”. A partir daí, travamos uma batalha interna, nossos olhos teimam em dizer que o que estamos vendo é real, enquanto o cérebro tenta nos demover desta idéia, essa prática, Chiodetto chama de “documental imaginário”.

A imagem fotográfica é também usada como meio e não fim de uma obra, vemos muitos exemplos disso na exposição. São fotografias servindo como suporte e trabalhando em conjunto com esculturas, áudio visuais e performances, criando obras híbridas. É como uma interdisciplinaridade de jeitos de fazer e pensar arte. Essas obras não precisariam, necessariamente, estar em uma mostra de fotografia, pois a foto é apenas parte do objeto artístico.

Amostra é composta por 170 trabalhos de 52 artistas, é muita foto boa e muito fotógrafo bom. Desses, os trabalhos que mais gostei foram os do Anderson Schneider, do Rodrigo Albert, João Castilho, Daniel Malva e Rodrigo Braga, não cabe comentar cada um aqui, mas quem quiser conversar sobre essas e as outras obras, estou sempre disponível no twitter e no facebook.

A exposição me fez pensar em minhas próprias imagens e a possibilidade de estar em uma seleção da “Geração 10”, a qual pertenço. Percebi que ainda estou muito preso no pensar e fazer da “velha” fotografia. Sou formado em jornalismo, criado no meio jornalístico. Aprendi a escrever e fotografar trabalhando em jornal. Esse ambiente é extremamente contaminado com o “bicho” da realidade. Preciso, a todo custo, me livrar desse “bicho” e começar a produzir trabalhos mais interpretativos. Não é impossível, uma vez que muitos dos artistas da Geração 00 vieram do fotojornalismo.

Percebi também, o que na verdade é meio óbvio, que não vai ser cumprindo as pautas do dia a dia que vou alcançar o reconhecimento, mas sim realizando trabalhos e projetos pessoais. Preciso me dedicar mais a isso.

Meu trabalho se assemelha muito mais ao dos “documentaristas imaginários” do que aos “artistas híbridos”, não me imagino fazendo fotos como as de Tony Camargo, por exemplo. Mas consigo pensar nas minhas imagens como as do Cia de Foto ou Anderson Schneider. Aliás, Cia de Foto é uma das principais referências do meu trabalho.

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Sobre André Americo

Sou jornalista e fotógrafo, trabalho no jornal Metro ABC
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6 respostas a Geração 00 e a fotografia irreal

  1. Maria Helena Grehs diz:

    Quando a gente se dedica a alguma coisa com amor, fascínio e persistência, cada dia se aprende mais um pouco, a fim de que se atinja o que a alma anseia: a alegria de ver um bom resultado!

  2. Eder Chiodetto diz:

    Olá André, fico muito feliz com a forma como a exposição mexeu com vc, te fez refletir sobre a fotografia no geral e sua produção. Eu tbém venho do fotojornalismo. Cruzar esse caminho para chegar nessa fotografia que vc definiu tão bem, de caráter mais subjetiva e menos dogmática, foi árduo, mas te garanto que tá valendo todo o esforço.
    Só queria deixar claro uma coisa: a minha seleção pensou em salientar novas linhas de força que surgiram nos anos 00 em função de várias mudanças tecnológicas e portanto, sociais, econômicas, etc. O mapeamento dessa geração se deu pela produção, por esses novos campos. Portanto meu intuito não foi o de “reunir os fotógrafos que mais se destacaram, do ano 2000 até 2010”, ok? Sei que é difícil separar uma coisa da outra, mas é importante para mim ressaltar isso. Grande abraço e obrigado pelo espaço aqui.

  3. Falou tudo aqui:

    “Percebi também, o que na verdade é meio óbvio, que não vai ser cumprindo as pautas do dia a dia que vou alcançar o reconhecimento, mas sim realizando trabalhos e projetos pessoais. Preciso me dedicar mais a isso.”

    Tb percebí isso, mas não consigo por em prática. rs

    abraço.
    Fred.

    • Isso é o mais complicado, tanto pela falta de tempo quanto pela (no meu caso) falta ideias. Pq não vale qualquer ideia, tem que ser algo realmente relevante, tem que entrar com o pé na porta

      Abs

  4. Eder Chiodetto diz:

    André e Fred, costumo dizer para meus alunos que é menos importante o que vc vai fotografar e mais relevante o como vc vai fotografar… abraços

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