Walker Evans e o uso dos detalhes

Allie Mae Burroughs

Walker Evans é talvez o maior expoente do cubismo na fotografia. Era um grande crítico da sociedade americana e, contratado pelo governo dos EUA, foi documentar os resultados de um programa de redução de pobreza no interior do país. Na época, os EUA acabavam de sair da Grande Depressão, que estourou em 1929. O presidente Franklin Roosevelt, queria que Evans registrasse os resultados (que ele imaginava positivos) das obras de sua política New Deal, que visava tirar o país da ruína econômica.

Evans foi à campo, e o resultado das imagens ficou longe do que Roosevelt esperava. Através da fotografia direta, característica primordial do cubismo, o fotógrafo evidenciou a tristeza e a miséria dos moradores dos estados do Sul americano (o sul, escravagista e perdedor da guerra de Secessão dos EUA, demorou um pouco mais para se se desenvolver do que os estados do norte). As imagens tornaram clara a toda a devastação moral e econômica que estava passando aquele país.

As imagens tipicamente cubistas, sempre cruas, sem qualquer tipo de manipulação, iam de encontro com os movimentos artísticos anteriores, onde os artistas abusavam de montagens, aberrações óticas e outros tipos de intervenções.

As primeiras imagens de Evans seguiam o estilo surrealista, que era a vanguarda da época. Munido de uma Leica, ele registrou as linhas e arquiteturas dos edifícios de Nova Iorque, no melhor estilo Rodchenko. Mas encontrou sua verdadeira voz na fotografia após conhecer as imagens do lendário fotógrafo francês Eugene Atget (o “fotografo dos fotógrafos”, terá um post só pra ele aqui em breve). Por influencia de Atget, Evans abandonou sua Leica e começou a fotografar com uma câmera antiga de grande formato. Foi estudando as fotografias do francês que Evans entendeu a importância do pormenor. De que os objetos podem falar muito sobre seus donos, esse conceito foi se desenvolvendo até que toda a imagem de Evans parece dizer mais do que aparenta. Cada detalhe no rosto do motivo, sempre encarando a câmera, cada objeto no fundo da cena parece estar cheio de significados implícitos. Dessa forma, Walker Evans foi o fotógrafo que aplicou de forma mais eficiente os conceitos da semiótica.

A imagem da Allie Mae Burroughs, por exemplo, símbolo maior da obra de Evans, é repleta de elementos que escondem outros significados. O meio sorriso, com a boca fechada, por exemplo, parece evidenciar que a mulher possuía dentes dos quais não se orgulhava. Os olhos marcados, parecem que foram obrigados a enxergar, de forma direta, a luz dura do interior americano por muitas vezes. É evidente que ela não é feliz, é evidente que é miserável. Nada mais precisa ser dito.

Façam o teste, interpretem esta imagem de Evans e comentem aqui. Vamos ver quantas visões e quantos detalhes diferentes uma mesma imagem pode conter

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Sobre André Americo

Sou jornalista e fotógrafo, trabalho no jornal Metro ABC
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